“Um dia um homem o fez entrar em uma casa ricamente mobiliada e disse-lhe:
‘Principalmente não cuspa no chão.’
Diógenes, que tinha vontade de cuspir, jogou-lhe o cuspe na cara, gritando-lhe que era o único lugar sujo que havia encontrado para poder fazê-lo.”
(D. Laércio- A vida de Diógenes - V)
Queria ter conhecido Diógenes, o Cínico.
Diógenes de Sinope.
Diógenes, o Louco.
Remete a ele algumas de minhas memórias mais felizes daquilo que nunca fui...e do que eu nunca serei.
Ele se destaca cá, na rede de minhas idéias, de tantos e tantos outros que comigo já se fizeram companhia na longa estrada dos meus dias.
Diógenes andava semi nu sobre as ruas.
Fazia suas necessidade físicas em qualquer lugar, sempre que a mãe natureza lhe ordenava.
Vivia por aí, sozinho, buscando a sua verdade.
Fez da pobreza material absoluta sua maior virtude.
Andava sempre com uma lamparina nas mãos e mesmo ao dia mantinha a chama acessa.
Quando questionado a respeito de tal ação descabida, respondia ao transeunte que passava:
“- Estou apenas a procura de um homem verdadeiro!”
Diz também uma de suas célebres histórias, que ao encontrar Alexandre - o Grande, maior e mais importante conquistador da cultura ocidental, este perguntou a Diógenes do que ele precisava.
O filósofo então, sentado ao solo, vendo que o famoso homem lhe fazia sombra com a onipotência de seus cavalos e homens disse:
“Apenas não me tires aquilo que não podes me dar”
"- Deixe-me ao meu Sol-".
E calou-se.
Diógenes foi apelidado pela população de Atenas de “cão”, porque além de um cajado e de um velho alforje, seu único pertence era uma pequena tigela de barro, onde o mesmo fazia suas raras e breves refeições.
Viram ele, certo dia, a pedir esmolas a uma estátua na praça:
“Peço porque ela é cega e não me vês.” Simples.
“E além disso me acostumo a pedir, sem nada receber.” Sábio.
Palavras de independência, palavras sensatas. Palavras perdidas.
Há certo tempo de sua vida, ele foi feito escravo e vendido.
Ao ser questionado pelo seu novo dono quais eram suas qualidades e o que ele sabia fazer, respondeu de imediato: ‘sei mandar’, e gritou ao arauto: ‘Pergunta quem quer comprar um amo?”
Hoje não há mais ecos de Diógenes, não há mais espaço pra homens como ele.
Hoje além de se ter a lanterna de Diógenes, mais do que nunca é preciso também ter seu cajado.
Ah, e claro, hoje também é preciso ter fé na gente.
Escárnios e Mal-dizeres
Pra quem tem tempo a perder...
sábado, 24 de setembro de 2011
quinta-feira, 22 de setembro de 2011
O inex-orável e agora inexistente Sr F.
“Nunca se aprende bastante com os homens.”
J Joyce, em Ulisses.
Quando descobriram o corpo de Edgar Fritz, depois de quase vinte e quatro horas de inércia mórbida, sentado no sofá da sala e com a xícara de chá frio, ainda em seu colo, nunca tiveram, todos na cidade, tamanho interesse em sua existência.
O médico chegou, atestou, vomitou.
Não necessariamente nessa ordem.
Zeloso e preciso como era, constatou categoricamente a morte do sujeito.
“Não está mais entre nós...” e ponto.
Ponto, ele justificou em seguida, porque a patroa ainda quer por que quer ver a sessão das sete no Riviera. "Hoje todos pagam meia", sorriu sem precisar sorrir.
E foi saindo do local.( e consequentemente da história).
O agente funerário, que chegou logo após, foi apenas preciso e metódico, como cabem a todos eles, claro, em meio a expressao incrédula e satisfeita de toda a gente que rodeava a mansão sombria, propriedade da família F. à séculos.
Foi um homem nulo o coitado.
Definido assim seu obituário, seguiu seu corpo para o local necessário.
Então Sr F tranquilamente e sem contestações, se foi.... se foi indo .mas indo mesmo.
Mas a quem diga que ele ainda preservava em si, como que por milagre, aquela pequena centelha de formosidade, vigor e ódio da raça humana, que compartilham todos aqueles que na vida aprendem que o instinto de sobrevivência cria vantagens sobre a massa, coisas que a genética e o caráter não permitem e que a sociedade não perdoa jamais.
Ignorando o parágrafo acima, voltemos ao enterro, aonde sete escolhidos pelo destino se revezavam entre discutir suas obrigações morais, caminhar e a velar os últimos minutos do honorável (e a cada momento mais morto do que nunca) defunto.
Eram aqueles com quem ele vinha, ao longo de décadas, a ter algum tipo de contato social. O barbeiro, o melhor e único da cidade, a lavadeira, que se manteve calada durante todo este conto ao revezar seus pensamentos em cada desejo sexual atendido ao cadáver e em se desviar no trajeto até o cemitério de alguns bêbados anônimos, que se identificavam com a triste vida acolhida pelo protagonista da cena e acompanhavam , como podiam, o espetáculo.
Antes do caixão descer, alguém propôs um minuto de silêncio, cerimônia interminável ao pobre homem que nunca havia rezado na vida.
Não se ouviu choros e nem se ouviu despedidas.
Alguns brindes oportunistas ao longe.
Foi como se todos quisessem que aquilo acabasse logo, que enterrassem o sujeito imprestável, ridículo, miserável e mesquinho que por sua vez ansiava a se decompor com a mais devida urgência.
Pra quê a pressa?
Pra que pusessem voltar logo pra suas vidinhas de merda.( que embora "de merda" ainda sim eram vidas e portanto uma vantagem acalentadora a tudo aquilo que se passava no momento.)
Ma se você, caro leitor, tem olho clínico pra coisa e percebe as nuances do cotidiano....ah meu caro, não há como descrever em palavras...
Foi sublime, foi grotesco, foi definitivamente... humano.
Se pudessem congelar aquele instante máximo...o clímax...o caixão descendo...as faces congeladas...e analisar cada olhar...cada desvio de olhar....cada piscadela...de cada um daqueles presentes ao ato, excluindo-se as ações do protagonista, por razoes obvias, claro.
Ah, sem duvidas...faria-se ali um novo capitulo da Divina Comédia.
O medo, a raiva, o desconhecido, o pavor da terra sobre o corpo.
A Redenção.
(pausa)
A morte portanto, nesse caso, não foi em vão.
- "Vá com deus, caro Sr Fritz", disse por fim o fiel companheiro de bar, não amigo, mas com lagrimas verdadeiras, que quase apareceram na sofrida face enrugada.
Um ultimo ato de tentativa de sentimento .
- "Ou que o diabo o carregue!". Pensaram outros em resposta uníssona.
Qual caminho escolheu não sei, apenas tenho a certeza que ele se foi.
Esse foi o Sr F, batizado Edgar R. Fritz, que ocupou minha mente por um longo tempo e que me fez ser um pouco do que hoje sou.
E se vc não o conheceu, ah, pode apostar, vc definitivamente não teve sorte nessa vida.
J Joyce, em Ulisses.
Quando descobriram o corpo de Edgar Fritz, depois de quase vinte e quatro horas de inércia mórbida, sentado no sofá da sala e com a xícara de chá frio, ainda em seu colo, nunca tiveram, todos na cidade, tamanho interesse em sua existência.
O médico chegou, atestou, vomitou.
Não necessariamente nessa ordem.
Zeloso e preciso como era, constatou categoricamente a morte do sujeito.
“Não está mais entre nós...” e ponto.
Ponto, ele justificou em seguida, porque a patroa ainda quer por que quer ver a sessão das sete no Riviera. "Hoje todos pagam meia", sorriu sem precisar sorrir.
E foi saindo do local.( e consequentemente da história).
O agente funerário, que chegou logo após, foi apenas preciso e metódico, como cabem a todos eles, claro, em meio a expressao incrédula e satisfeita de toda a gente que rodeava a mansão sombria, propriedade da família F. à séculos.
Foi um homem nulo o coitado.
Definido assim seu obituário, seguiu seu corpo para o local necessário.
Então Sr F tranquilamente e sem contestações, se foi.... se foi indo .mas indo mesmo.
Mas a quem diga que ele ainda preservava em si, como que por milagre, aquela pequena centelha de formosidade, vigor e ódio da raça humana, que compartilham todos aqueles que na vida aprendem que o instinto de sobrevivência cria vantagens sobre a massa, coisas que a genética e o caráter não permitem e que a sociedade não perdoa jamais.
Ignorando o parágrafo acima, voltemos ao enterro, aonde sete escolhidos pelo destino se revezavam entre discutir suas obrigações morais, caminhar e a velar os últimos minutos do honorável (e a cada momento mais morto do que nunca) defunto.
Eram aqueles com quem ele vinha, ao longo de décadas, a ter algum tipo de contato social. O barbeiro, o melhor e único da cidade, a lavadeira, que se manteve calada durante todo este conto ao revezar seus pensamentos em cada desejo sexual atendido ao cadáver e em se desviar no trajeto até o cemitério de alguns bêbados anônimos, que se identificavam com a triste vida acolhida pelo protagonista da cena e acompanhavam , como podiam, o espetáculo.
Antes do caixão descer, alguém propôs um minuto de silêncio, cerimônia interminável ao pobre homem que nunca havia rezado na vida.
Não se ouviu choros e nem se ouviu despedidas.
Alguns brindes oportunistas ao longe.
Foi como se todos quisessem que aquilo acabasse logo, que enterrassem o sujeito imprestável, ridículo, miserável e mesquinho que por sua vez ansiava a se decompor com a mais devida urgência.
Pra quê a pressa?
Pra que pusessem voltar logo pra suas vidinhas de merda.( que embora "de merda" ainda sim eram vidas e portanto uma vantagem acalentadora a tudo aquilo que se passava no momento.)
Ma se você, caro leitor, tem olho clínico pra coisa e percebe as nuances do cotidiano....ah meu caro, não há como descrever em palavras...
Foi sublime, foi grotesco, foi definitivamente... humano.
Se pudessem congelar aquele instante máximo...o clímax...o caixão descendo...as faces congeladas...e analisar cada olhar...cada desvio de olhar....cada piscadela...de cada um daqueles presentes ao ato, excluindo-se as ações do protagonista, por razoes obvias, claro.
Ah, sem duvidas...faria-se ali um novo capitulo da Divina Comédia.
O medo, a raiva, o desconhecido, o pavor da terra sobre o corpo.
A Redenção.
(pausa)
A morte portanto, nesse caso, não foi em vão.
- "Vá com deus, caro Sr Fritz", disse por fim o fiel companheiro de bar, não amigo, mas com lagrimas verdadeiras, que quase apareceram na sofrida face enrugada.
Um ultimo ato de tentativa de sentimento .
- "Ou que o diabo o carregue!". Pensaram outros em resposta uníssona.
Qual caminho escolheu não sei, apenas tenho a certeza que ele se foi.
Esse foi o Sr F, batizado Edgar R. Fritz, que ocupou minha mente por um longo tempo e que me fez ser um pouco do que hoje sou.
E se vc não o conheceu, ah, pode apostar, vc definitivamente não teve sorte nessa vida.
Divago e fico...lugar comum com pitadas de auto ajuda
datado de 20/11/2001
Ame bem o seu amor....
e faça valer a pena...
o mundo não corre a favor
daqueles a quem dele apequena
ainda esperam respostas?
ora, apenas siga seu curso...
hoje te beijam, ontem discurso
amanhã? irão dar-lhe as costas!
mas ainda sim, Cuide bem
daqueles a quem vc ama...
da família e dos amigos que tem
siga o caminho que chama!
se ainda viver, a mais bela arte!
Há também quem no mundo te engana
ao contorno destes perigos, alarde!
fé infantil e uma alegria profana...
Então faça sua parte, amigo
fale apenas a sua parte...
e do insólito amor imortal,
mesmo que seja o final...(é sorte)
mantenha viva sua chama!
....
tenha fé.
guarde teu egoísmo,
e sofra calado.
ninguém tem nada com isso.
ninguém.
Ame bem o seu amor....
e faça valer a pena...
o mundo não corre a favor
daqueles a quem dele apequena
ainda esperam respostas?
ora, apenas siga seu curso...
hoje te beijam, ontem discurso
amanhã? irão dar-lhe as costas!
mas ainda sim, Cuide bem
daqueles a quem vc ama...
da família e dos amigos que tem
siga o caminho que chama!
se ainda viver, a mais bela arte!
Há também quem no mundo te engana
ao contorno destes perigos, alarde!
fé infantil e uma alegria profana...
Então faça sua parte, amigo
fale apenas a sua parte...
e do insólito amor imortal,
mesmo que seja o final...(é sorte)
mantenha viva sua chama!
....
tenha fé.
guarde teu egoísmo,
e sofra calado.
ninguém tem nada com isso.
ninguém.
Se tu vieres, ou melhor ainda, ficares
Sou pouco pois sou um só
apenas mais um na jornada
mas se ficares, repito e garanto
terás companheiro de estrada
não prometo céus, apenas terra e abrigo,
ja disse, pois sou homem limitado
mas algo, que ninguém tem, te digo
um segredo aqui tenho guardado
bonitas palavras não ficam
nem versos pobres de fato
sou teu... mas se fores minha
aceitarias acordar esse trato?
apenas mais um na jornada
mas se ficares, repito e garanto
terás companheiro de estrada
não prometo céus, apenas terra e abrigo,
ja disse, pois sou homem limitado
mas algo, que ninguém tem, te digo
um segredo aqui tenho guardado
bonitas palavras não ficam
nem versos pobres de fato
sou teu... mas se fores minha
aceitarias acordar esse trato?
quarta-feira, 21 de setembro de 2011
Sonhos
Antes de morrer, só bem antes
quando ainda me fazia poeta
tinha em mim forças infantes
era minha alma concreta.
Éramos dois, o sol e a penumbra
a correr pela trilha verdade
foi-se época fecunda
era nossa mocidade
Então, o vento soprou
e vi cansaço em seu rosto
lembro bem quando o sino soou
era pleno mês de agosto
o que aconteceu ao meu lado
tristeza, que aqui já anseia
o calor de súbito trocado
pela frieza de vidros na areia...
quando ainda me fazia poeta
tinha em mim forças infantes
era minha alma concreta.
Éramos dois, o sol e a penumbra
a correr pela trilha verdade
foi-se época fecunda
era nossa mocidade
Então, o vento soprou
e vi cansaço em seu rosto
lembro bem quando o sino soou
era pleno mês de agosto
o que aconteceu ao meu lado
tristeza, que aqui já anseia
o calor de súbito trocado
pela frieza de vidros na areia...
Tempo
Eu agora, que desfecho!
já nem penso mais em ti...
mas agora que nunca deixo
de lembrar que te esqueci?
Mário Quintana
(datado de 23 de junho de 2004)
Seu mundo entrou em colapso numa manhã de sábado.
Ela, ao acordar, percebeu a falta clara e real daquilo que havia se tornado cotidiano.
O rádio que a despertara noticiava calor e tempo claro para todo o fim de semana.
Mas não haviam mais planos que a incluíssem.
Virou a cabeça, olhou em volta.
Vazio.
A sensaçao de dedo goela abaixo bateu forte.
Eram exatos sete e quinze da manhã.
O mundo lá fora seguia seu curso, nada havia mudado.
Carros, pessoas apressadas, pombos na praça, vira-latas farejando comida.
Bateu vontade de escrever uma carta.
Saudade da mãe que já se fora.
Lembrança de uma música há tempos esquecida.
Pensou na academia.
Pensou em fazer um bom almoço.
Pensou em alimentar o canário.
Nada disso.
Ligou a Tv.
No momento em que no noticiário falavam de uma separação de gêmeos siameses, lá na Tailândia, notícia que em dias comuns passaria despercebida.
Primeiro vida, depois União, destino, escolha, separação... o cerebro processava tudo instantaneamente.
E tudo aquilo doía fundo.
Doía como se um punhal afiado saisse de dentro pra fora, poupando a carne e dilacerando a alma.
Veio a náusea e então lembrou-se dele.
Viu um jarro de rosas murchas encostados na cabeceira da cama.
- O tempo instala metodicamente todo o curso da vida - refletiu.
"Não há saida de emergência.".
Ninguém quer ser triste, mas por que diachos a nossa felicidade tem que estar nas mãos dos outros?
Aqueles que dizem serem felizes sozinhos mentem copiosamente.
Fechou os olhos.
Procurou , ainda encostada ao travesseiro, com as mãos remexendo, um recado dele na gaveta.
Achou um papel dobrado, já roto pelo tempo.
Leu (e releu) a mensagem:
"meu bem, tive que sair mais cedo, reunião as 7. tem pizza na geladeira, volto as 7. Bj, fica com Deus."
Uma lagrima anunciou,pairou.... mas não veio.
Respirou profundamente.
Pediu coragem aos céus pra se levantar, pra tocar em frente, pra sentir novamente fome, desejo, algo que lembre vida.
"Vida, vida, vida", repetia sozinha como uma prece.
Mas ela sabia que a felicidade tinha ido . e que ela não mais voltaria às 7.
Reunião sem hora marcada. Demissão com justa causa.
Restaram ali as rosas, restou a carta, restou a sensação de que poderia ter sido.
Mas que não foi.
Ela sabia que aquela era a sua chance.Isso não se descreve com palavras.
Depois de oito meses ela casou-se com renomado arquiteto. Homem bom e influente.Tiveram 3 filhos.
Ele foi para Paris, arrumou emprego estável, comprou terrreno pra mãe e alguns meses depois deu um ultimo mergulho com roupa e tudo mais no belo e indiferente Rio Siena.
já nem penso mais em ti...
mas agora que nunca deixo
de lembrar que te esqueci?
Mário Quintana
(datado de 23 de junho de 2004)
Seu mundo entrou em colapso numa manhã de sábado.
Ela, ao acordar, percebeu a falta clara e real daquilo que havia se tornado cotidiano.
O rádio que a despertara noticiava calor e tempo claro para todo o fim de semana.
Mas não haviam mais planos que a incluíssem.
Virou a cabeça, olhou em volta.
Vazio.
A sensaçao de dedo goela abaixo bateu forte.
Eram exatos sete e quinze da manhã.
O mundo lá fora seguia seu curso, nada havia mudado.
Carros, pessoas apressadas, pombos na praça, vira-latas farejando comida.
Bateu vontade de escrever uma carta.
Saudade da mãe que já se fora.
Lembrança de uma música há tempos esquecida.
Pensou na academia.
Pensou em fazer um bom almoço.
Pensou em alimentar o canário.
Nada disso.
Ligou a Tv.
No momento em que no noticiário falavam de uma separação de gêmeos siameses, lá na Tailândia, notícia que em dias comuns passaria despercebida.
Primeiro vida, depois União, destino, escolha, separação... o cerebro processava tudo instantaneamente.
E tudo aquilo doía fundo.
Doía como se um punhal afiado saisse de dentro pra fora, poupando a carne e dilacerando a alma.
Veio a náusea e então lembrou-se dele.
Viu um jarro de rosas murchas encostados na cabeceira da cama.
- O tempo instala metodicamente todo o curso da vida - refletiu.
"Não há saida de emergência.".
Ninguém quer ser triste, mas por que diachos a nossa felicidade tem que estar nas mãos dos outros?
Aqueles que dizem serem felizes sozinhos mentem copiosamente.
Fechou os olhos.
Procurou , ainda encostada ao travesseiro, com as mãos remexendo, um recado dele na gaveta.
Achou um papel dobrado, já roto pelo tempo.
Leu (e releu) a mensagem:
"meu bem, tive que sair mais cedo, reunião as 7. tem pizza na geladeira, volto as 7. Bj, fica com Deus."
Uma lagrima anunciou,pairou.... mas não veio.
Respirou profundamente.
Pediu coragem aos céus pra se levantar, pra tocar em frente, pra sentir novamente fome, desejo, algo que lembre vida.
"Vida, vida, vida", repetia sozinha como uma prece.
Mas ela sabia que a felicidade tinha ido . e que ela não mais voltaria às 7.
Reunião sem hora marcada. Demissão com justa causa.
Restaram ali as rosas, restou a carta, restou a sensação de que poderia ter sido.
Mas que não foi.
Ela sabia que aquela era a sua chance.Isso não se descreve com palavras.
Depois de oito meses ela casou-se com renomado arquiteto. Homem bom e influente.Tiveram 3 filhos.
Ele foi para Paris, arrumou emprego estável, comprou terrreno pra mãe e alguns meses depois deu um ultimo mergulho com roupa e tudo mais no belo e indiferente Rio Siena.
terça-feira, 20 de setembro de 2011
Exausto
O errado e o certo...
qual caminho seguir?
fazer a viagem dos sonhos ou procurar uma invenção pra que a luz dos teus olhos estejam sempre ao meu lado?
dá pra juntar só isso?
...se nos esforçarmos dá sim.
juntar tudo isso e colocar sentido em tudo e em nada.
(a noçao do perigo....ah, a maldita noçao do perigo...)
"Vida Imensa. Vida breve"...
mas tem sempre a força pra colocar tudo em ordem...
e tem tanta gente sem nenhuma história pra contar...
observar pessoas na rua...observar espelhos.
alguém te escolheu pra seguir seu caminho...
e agora?
seu coraçao eu penso comigo... é sem preço pra mim
até claro eu dizer que não preciso mais de você...
histórias antigas, estórias guardadas...
Dias difíceis...noites em claro...
tudo isso e mais um pouco Schopenhauer explica.
Mas eu insisto e acredito que te amo...
clichês, sexo e sempre o mais do mesmo...
e claro...
muitas outras noites em claro...
deixa eu saber o que você pensa
quando o mundo se revela a você?
ou me deixa aqui,
quieto.
Quieto na medida exata da tranquilidade dos pombos, que mesmo com asas, buscam e se contentam com migalhas ao chão.
é amor, claro.
mas e se não for tudo isso?
qual caminho seguir?
fazer a viagem dos sonhos ou procurar uma invenção pra que a luz dos teus olhos estejam sempre ao meu lado?
dá pra juntar só isso?
...se nos esforçarmos dá sim.
juntar tudo isso e colocar sentido em tudo e em nada.
(a noçao do perigo....ah, a maldita noçao do perigo...)
"Vida Imensa. Vida breve"...
mas tem sempre a força pra colocar tudo em ordem...
e tem tanta gente sem nenhuma história pra contar...
observar pessoas na rua...observar espelhos.
alguém te escolheu pra seguir seu caminho...
e agora?
seu coraçao eu penso comigo... é sem preço pra mim
até claro eu dizer que não preciso mais de você...
histórias antigas, estórias guardadas...
Dias difíceis...noites em claro...
tudo isso e mais um pouco Schopenhauer explica.
Mas eu insisto e acredito que te amo...
clichês, sexo e sempre o mais do mesmo...
e claro...
muitas outras noites em claro...
deixa eu saber o que você pensa
quando o mundo se revela a você?
ou me deixa aqui,
quieto.
Quieto na medida exata da tranquilidade dos pombos, que mesmo com asas, buscam e se contentam com migalhas ao chão.
é amor, claro.
mas e se não for tudo isso?
Inocência
Lógico que eu sabia.
Ou ao menos hoje eu sei.
Era fim de verão, meados dos anos 90.
Aquela experiência que ocorre, se estivermos atentos, claro, duas ou três vezes nesta vida.
Daqueles fatos que nos marcam, que volta e meia vem à tona, latejando a cabeça da gente.
Primeiro, digo que se pudesse, por obra do destino ou mesmo de Deus, que por fim machucam do mesmo modo, faria tudo outra vez.
Igualzinho.
Do mesmo jeito.
Ela nem era tão bonita.
Era comum.
Mas como as coisas comuns dessa nossa estúpida vida ela tinha algo único, e o que a fazia tão comum por fim a fez única, milagre dos sentimentos alheios.
Na minha finita e desocupada visão do mundo, como ele se mostra, ela chamou minha atenção.
E logo fez sua morada aqui entre os Meus.
Coisas bonitas, eu pensava naquela época, são tão limitadas e por si só tão previsiveis em suas perfeições, que cansam demais a gente.
Elas não fadigam os olhos, claro, sempre sedentos à ingenuidade.
Mas fadigam a alma.
E também nosso estômago, nauseado a aceitar tudo que o espírito o alimenta.
Ela era minha saída.
Uma oportunidade de fuga.
Não sei se acontece com todos, ou com todo o mundo, mas aprendi que se formos espertos, devemos ser felizes e aproveitar a vida como ela nos aparece.
Li isso em algum lugar, acho que muita gente leu isso também.
Mas não o será.
Nunca.
Assim como não o será a humanidade, antitese da vida.
Sem pessimismos, sem mais delongas, segue a história...
Cheguei com cuidado, pois nosso instinto avisa, e obriga, que em terreno estranho devemos nos proteger de cada passo, semente, pessoa ou brilho que se aproxime. ( sim, naquela época assim eu agia).
Escolhi minha máscara, camuflei meu coração, me tornei mais homem do que nunca fui e ainda mais humano do que talvez nunca serei.
E apostei.
Não mudou.
Como as crianças, o homem apaixonado toca o que o fere com os sentidos, mas um "nao"...um simples "não", esta única palavra, mudando todo um universo.
Mudando meu mundo.
Aquilo ainda há de me fazer respirar a vida inteira.
A minha felicidade e a minha utopia em jogo.
E mais nada.
Não.
Ah, sabes, naquela noite eu não dormi.
Acho que não dormi por três noites seguidas.
Atribuí esta minha miséria absoluta a um obstacúlo terreno, isso por meses.
Lá pelo fim do ano, cansado demais...eu descansei.
Coisa de instinto de sobrevivência mesmo.
e nessa noite, ao me lembrar de tudo passado, blues, noites em claro, secura nos olhos...eu brindei sozinho.
Naquela noite, sim, me lembro bem, eu não bebi uma taça...mas a garrafa inteira.
Ou ao menos hoje eu sei.
Era fim de verão, meados dos anos 90.
Aquela experiência que ocorre, se estivermos atentos, claro, duas ou três vezes nesta vida.
Daqueles fatos que nos marcam, que volta e meia vem à tona, latejando a cabeça da gente.
Primeiro, digo que se pudesse, por obra do destino ou mesmo de Deus, que por fim machucam do mesmo modo, faria tudo outra vez.
Igualzinho.
Do mesmo jeito.
Ela nem era tão bonita.
Era comum.
Mas como as coisas comuns dessa nossa estúpida vida ela tinha algo único, e o que a fazia tão comum por fim a fez única, milagre dos sentimentos alheios.
Na minha finita e desocupada visão do mundo, como ele se mostra, ela chamou minha atenção.
E logo fez sua morada aqui entre os Meus.
Coisas bonitas, eu pensava naquela época, são tão limitadas e por si só tão previsiveis em suas perfeições, que cansam demais a gente.
Elas não fadigam os olhos, claro, sempre sedentos à ingenuidade.
Mas fadigam a alma.
E também nosso estômago, nauseado a aceitar tudo que o espírito o alimenta.
Ela era minha saída.
Uma oportunidade de fuga.
Não sei se acontece com todos, ou com todo o mundo, mas aprendi que se formos espertos, devemos ser felizes e aproveitar a vida como ela nos aparece.
Li isso em algum lugar, acho que muita gente leu isso também.
Mas não o será.
Nunca.
Assim como não o será a humanidade, antitese da vida.
Sem pessimismos, sem mais delongas, segue a história...
Cheguei com cuidado, pois nosso instinto avisa, e obriga, que em terreno estranho devemos nos proteger de cada passo, semente, pessoa ou brilho que se aproxime. ( sim, naquela época assim eu agia).
Escolhi minha máscara, camuflei meu coração, me tornei mais homem do que nunca fui e ainda mais humano do que talvez nunca serei.
E apostei.
Não mudou.
Como as crianças, o homem apaixonado toca o que o fere com os sentidos, mas um "nao"...um simples "não", esta única palavra, mudando todo um universo.
Mudando meu mundo.
Aquilo ainda há de me fazer respirar a vida inteira.
A minha felicidade e a minha utopia em jogo.
E mais nada.
Não.
Ah, sabes, naquela noite eu não dormi.
Acho que não dormi por três noites seguidas.
Atribuí esta minha miséria absoluta a um obstacúlo terreno, isso por meses.
Lá pelo fim do ano, cansado demais...eu descansei.
Coisa de instinto de sobrevivência mesmo.
e nessa noite, ao me lembrar de tudo passado, blues, noites em claro, secura nos olhos...eu brindei sozinho.
Naquela noite, sim, me lembro bem, eu não bebi uma taça...mas a garrafa inteira.
Ecce Homo
carrego o alicerce do mundo
a vida sóbria é quase assim
chegará minha vez,tenho calma
mesmo que seje ao fim
da tal Vida - um flerte da morte
é tango em fim de novela
que na hora, não hesitante
(ou que apenas -por um instante-...)
eu sinta os lábios dela...
Então, o céu se abrirá
metáfora do perigo iminente?
a dor, ela finge que passa
e a gente então finje que sente.
dirão: - "Toda vida é dolorosa" -
o primeiro ensinamento budista
no rol das perdas e ganhos
colocam meu nome na lista
e eu, com meu amor ( negado)
saio definitivo da cena
apenas um coadjuvante
sem nenhuma idéia brilhante
e se nada fiz de importante
eu devo aos caprichos de Helena !
foi Midas, de modo reverso
que trouxe consigo pesares
estamos mesmo protegidos
quantos mortos e feridos!
ou estamos foragidos
no seio de nossos lares?
Ao vasto vale do mundo
levei meu cancer material
na busca à pureza do Homem
me fiz de novo animal
e qual foi tamanho o espanto
ver esta terra assim devastada
é tão pouco pra quem via muito
vasto mundo pra quem via nada
Cristãos, judeus e budistas
todos deixando seu rastro
iniciantes ou passionais
seguidores de Zoroastro
A queda e os anjos rebeldes
vieram da duabilidade
então todos seremos punidos
por uma simples curiosidade?
sim, eu vi. A mim mesmo,
na sagrada montanha do mundo
"ah , teu coraçao é tao raso
e o teu egoísmo profundo."
o medo, nosso motor pulsante
aqui, ligado à moral
destila tantos prazeres
tranquilo, sereno...tal qual
libertos das suas correntes
no simples sair para voar
traçando destino incerto
de você, fiquei bem perto
sem defesa, estou aberto
imovel, lhe vejo passar.
já Deus, figura paterna
que trazes no inconsciente
nos mostrou Adão e Eva
mas não se esqueceu da serpente
Ah, o Problema em envelhecer
é o crescente medo da morte
muitos de nós queimando aos poucos
mas outros tem melhor sorte
Dédalo vôou com prudência
assim atingiu outra margem
mas foi Ícaro usando a História
que soube curtir a viagem
Ao aceitar tudo isso
como uma conclusão derradeira
entrego minha'lma cansada
pois de você nao espero mais nada
a vida só é coisa passada
em livros de cabeceira...
estou só, com medo de tudo
estou nu, covarde e imundo
sou livre, mas como outrora
ainda alicerce do mundo!
a vida sóbria é quase assim
chegará minha vez,tenho calma
mesmo que seje ao fim
da tal Vida - um flerte da morte
é tango em fim de novela
que na hora, não hesitante
(ou que apenas -por um instante-...)
eu sinta os lábios dela...
Então, o céu se abrirá
metáfora do perigo iminente?
a dor, ela finge que passa
e a gente então finje que sente.
dirão: - "Toda vida é dolorosa" -
o primeiro ensinamento budista
no rol das perdas e ganhos
colocam meu nome na lista
e eu, com meu amor ( negado)
saio definitivo da cena
apenas um coadjuvante
sem nenhuma idéia brilhante
e se nada fiz de importante
eu devo aos caprichos de Helena !
foi Midas, de modo reverso
que trouxe consigo pesares
estamos mesmo protegidos
quantos mortos e feridos!
ou estamos foragidos
no seio de nossos lares?
Ao vasto vale do mundo
levei meu cancer material
na busca à pureza do Homem
me fiz de novo animal
e qual foi tamanho o espanto
ver esta terra assim devastada
é tão pouco pra quem via muito
vasto mundo pra quem via nada
Cristãos, judeus e budistas
todos deixando seu rastro
iniciantes ou passionais
seguidores de Zoroastro
A queda e os anjos rebeldes
vieram da duabilidade
então todos seremos punidos
por uma simples curiosidade?
sim, eu vi. A mim mesmo,
na sagrada montanha do mundo
"ah , teu coraçao é tao raso
e o teu egoísmo profundo."
o medo, nosso motor pulsante
aqui, ligado à moral
destila tantos prazeres
tranquilo, sereno...tal qual
libertos das suas correntes
no simples sair para voar
traçando destino incerto
de você, fiquei bem perto
sem defesa, estou aberto
imovel, lhe vejo passar.
já Deus, figura paterna
que trazes no inconsciente
nos mostrou Adão e Eva
mas não se esqueceu da serpente
Ah, o Problema em envelhecer
é o crescente medo da morte
muitos de nós queimando aos poucos
mas outros tem melhor sorte
Dédalo vôou com prudência
assim atingiu outra margem
mas foi Ícaro usando a História
que soube curtir a viagem
Ao aceitar tudo isso
como uma conclusão derradeira
entrego minha'lma cansada
pois de você nao espero mais nada
a vida só é coisa passada
em livros de cabeceira...
estou só, com medo de tudo
estou nu, covarde e imundo
sou livre, mas como outrora
ainda alicerce do mundo!
dESNORTEADO
Leve pura madrugada
Rosa dos ventos
das almas perdidas
ouvi meus lamentos!
andando na chuva
na mais pura calma
Rosa dos ventos,
lavai minha alma!
na noite obscura
no trato da pele
suave textura
a quem se difere
da Rosa dos ventos
que trago na vida
sugai o veneno
e tratai da ferida
no fim da jornada
no toque da morte
outrora disposto
um tino de sorte
abrindo meus olhos
cansados e lentos
mas não existe sentido
pra Rosa dos Ventos...
Rosa dos ventos
das almas perdidas
ouvi meus lamentos!
andando na chuva
na mais pura calma
Rosa dos ventos,
lavai minha alma!
na noite obscura
no trato da pele
suave textura
a quem se difere
da Rosa dos ventos
que trago na vida
sugai o veneno
e tratai da ferida
no fim da jornada
no toque da morte
outrora disposto
um tino de sorte
abrindo meus olhos
cansados e lentos
mas não existe sentido
pra Rosa dos Ventos...
sexta-feira, 17 de junho de 2011
Cartoon
Seu amor veio e foi-se.
Foi como passarinho...
mirou horizontes, bateu asas,
Caiu do ninho...
Veio o gato,
personagem alheio a todo o destino
Te colocou entre seus dentes,
Com carinho.
Virou a esquina
Te levou daqui,
... e sumiu.
Sorrateiro, calmo, confiante,
de mansinho...
de mansinho...
sexta-feira, 3 de junho de 2011
Cotidiano 1
Você,
que tem os dados brancos na mão,
irá realmente arriscar-se nessa vida?
arrumar um emprego,
perder a inocência...
ao dizer "Eu te amo"?
irá ser alguém de verdade?
seus amigos, sua família,
eles poderão realmente contar contigo?
já sentiu a brisa de hoje,
acordou cedo, respirou fundo...
Você, alguma vez na vida, já colheu flores reais?
irá contrair uma rara doença
que destruirá seus sentimentos?
e trocar seus poucos segredos
como notas rasgadas (guardados no bolso)
numa prateleira de supermercado?
você irá por tudo a perder?
destruir os que ama,
sem dizer uma única palavra?
olhar pra trás,
ver suas pegadas indiferentes
pra entender que se perdeu?
(e o QUE se perdeu?)
é isso que te restou,
Todos se foram...
no apagar das luzes...
Sozinho, você então percebe
que também não vai durar muito tempo...
Triste é o rio que corre sem nunca lhe perguntarem o porquê.
que tem os dados brancos na mão,
irá realmente arriscar-se nessa vida?
arrumar um emprego,
perder a inocência...
ao dizer "Eu te amo"?
irá ser alguém de verdade?
seus amigos, sua família,
eles poderão realmente contar contigo?
já sentiu a brisa de hoje,
acordou cedo, respirou fundo...
Você, alguma vez na vida, já colheu flores reais?
irá contrair uma rara doença
que destruirá seus sentimentos?
e trocar seus poucos segredos
como notas rasgadas (guardados no bolso)
numa prateleira de supermercado?
você irá por tudo a perder?
destruir os que ama,
sem dizer uma única palavra?
olhar pra trás,
ver suas pegadas indiferentes
pra entender que se perdeu?
(e o QUE se perdeu?)
é isso que te restou,
Todos se foram...
no apagar das luzes...
Sozinho, você então percebe
que também não vai durar muito tempo...
Triste é o rio que corre sem nunca lhe perguntarem o porquê.
quinta-feira, 2 de junho de 2011
Cotidiano 2
À noite, quando você está a dormir
Bem ali, na nossa cama desfeita
Eu liberto de mim quase tudo de bom que trago comigo
É nessa hora
De silencio, de calma absoluta
Vendo seus pés descobertos
Seu rosto sereno
Um quase sorriso surgindo na face
(presságios de bons sonhos ?.)
É só ali
naquele exato momento
Que eu deixo por um instante de me preocupar contigo
Enconsto-me na cadeira
Relaxo os meus ombros
Fecho os olhos e respiro profundamente
Agradeço...não sei bem o quê ou bem a quem...
Nem sei se realmente agradeço...(mas sinto como se fosse uma prece)
E quando de repente você se mexe,
vira-se para o outro lado...
pelo desconforto da inércia
Vem o susto!
Me volto pra realidade, pro cotidiano,
pra minha sina...
pra minha sina...
E então volto a te amar
mais uma vez...
Pelo telefone *
*história retirada da minha mente, mas influenciada claramente pela escrita de Caio F. há diversas citaçoes do autor, emendadas aqui como se fossem uma colcha de retalhos...
que seja, créditos a ele....
“Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita...”
Carlos Drummond de Andrade
“Se eu talvez tivesse sido mais forte”
Essa é a frase que lateja na minha cabeça desde quando deixei que as coisas acontecessem.
Culpa minha, só minha, da minha maldita fraqueza. Mas antes que me pergunte, não, não tenho nenhum orgulho disso. Nem orgulho, pena, arrependimento nem nada.
- A ligação ta péssima...tá me ouvindo?
Só me lamenta é saber que, sempre fui eu no comando, o tempo todo, ditando regras e fazendo as coisas do meu jeito. Baita mentira, eu tava mesmo era carente, de porre, e incrivelmente fudida ; comigo, só comigo e com a vida.
Um dia se ajeita. Ah, se não!
Sim, eu sei, nesse momento, era eu, ainda era eu, e mesmo quando abdiquei da vontade, vista antes como conquista, e cedi espaço, ainda era eu.
Sabe quando a gente tá sem rumo? mas sem rumo mesmo, tipo fim de noite, gosto de cerveja quente na boca, que mesmo assim a gente empurra goela abaixo, por simples desespero, pela exata falta de sentido daquele momento, pela musica absurdamente alta que incomoda os ouvidos e a alma, mas que a gente tolera por saber que o silêncio seria, esse sim, intolerável; quando se percebe, na verdade: eu queria mesmo era não estar ali, longe, sozinha, mas não “longe-sozinha”, entende?
Aí, nessa hora, sai de baixo, baixa metafísica, bate saudade de casa, é nó na garganta, aquela vontade louca de ser eu mesma ...só que depois passa.
Ontem, ele tinha ligado, justo no momento em que eu tava tranqüila, não pela vida, tava tranqüila era pela ausência da falta, ausência daquele sentimento calado, uma trégua nestes dias tão presentes...
Então ele veio, com o mesmo jeito de antes, e eu que já passei por essa estrada, que já conheço cada movimento desse jogo, lá fui, perfumada, segura, dona de mim, pagando pra ver.
“È tudo busca”, você diria; a tão falada e eterna busca ao amor, porque somos seres complexos, sociais, conscientes, e temos essa extrema necessidade por afeto e por um corpo quente pra chamar de “meu bem”, pra acordar num domingo de sol e cheirar o travesseiro dele e pedir um abraço, só mais um, e ouvir que te amo e te quero pra sempre, “até quando estivermos velhinhos?” , “sim, até quando formos dois velhinhos chatos e ranzinzas”, e ao lembrar que hoje é quarta feira, ansiar pelo almoço de domingo com a família reunida, ligar e dizer pra Tia Carmem não faltar , trazer as crianças e encomendar brigadeiro ....”.
Fala sério, ontem ele falava de amor e queria mesmo era me comer;
Tá, concordo, eu também queria isso, e pra não fazer feio fiz meu joguinho manjado, tudo baseado no meu conhecimento prévio dos fatos, naquilo que eu sei e aprendi, naquilo que no fim, sabemos todos, não serve mesmo é pra nada.
Mas que ainda funciona. E bem.
Justo quando eu estava mais ou menos em paz (se é que isso existe), fui lá e estraguei tudo, e o pior, incrivelmente de forma tão superficial, ficando no fim aquela sensação dejavú, tipo “é assim-que-as-coisas-são” e “ não-há-nada-a fazer-e-amanhã-tudo-passa...”
Isso, foi ontem.
“O instinto de sobrevivência não tolera cama vazia”, você uma vez me disse isso.
Lembra que na hora eu achei graça ?
Se fosse hoje, talvez continuasse a sorrir, mas agora com a boca seca, porque, te digo, a contemplação destas coisas reais doeu de um jeito que eu acusei o golpe, perdi algo que não soube na hora o quê, e talvez ainda não saiba, mas que incomoda .
E persiste.
...Ainda tá ai pra me ouvir?
Hoje de manhã, escovando os dentes, como em um mantra, fiquei repetindo repetindo : “quero uma história bonita, quero voltar no exato ponto em que perdi o toque. “
- “Ce” não tá me entendendo e eu to falando merda, né?
Fico aqui, te enchendo, procurando saída pra isso, saída praquilo, sabendo que não...que saco! tô cansada de saber que não quero saída pra merda nenhuma, só me bastava mesmo era um pouco de equilíbrio, isso, equilíbrio, pra que quando eu desejasse andar, pudesse fazer do meu jeito.
Acho que agora tô tão longe disso, sabe, porque a minha vida tornou-se partes de coisas alheias, parte do meu trabalho, das pessoas à minha volta, e acredite, ainda não me vejo parte disso...ainda. Porém aceito.: calada, omissa, ótima funcionária.
De alguma forma e por algum estranho propósito mantenho ainda alguma coisa guardada. Egoísticamente, em segredo, faço isso só por mim. Já tentei de tudo, noitada, tarô, amor platônico, virtual, xadrez, ficar, beijar, trepar, televisão no domingo, “livro de auto ajuda, horóscopo, novas aventuras, velhas decepções, até comprei um cachorro”...não me interrompa agora, tá ?, é que de tudo isso que eu te disse, só resumindo, queria apenas ser eu mesma, e ao querer isso, desejar com uma fé daquelas,sabe, tipo, febre de criança, tipo aqueles programas de crente que passam na madrugada, levantar os braços, sem precisar levantar os braços, gritar , sem precisar abrir a boca... ah, Deus, Buda, Oxu, que nada.... quero uma fé danada é em mim mesmo!
Sabe, a gente perde tanto tempo procurando sentido na vida e o único sentido é estarmos vivos, parece tão obvio, né? Pois é, Eu também não consigo.
Não sei se a gente, no final , pode mesmo voltar atrás , porque é tudo tão rápido, tanto trauma, tanta gente, tanta vida vagando entre/com/sobre a gente e a certeza de que não dá pra retornar e sermos aquilo que éramos... A gente se encontra e se perde todos os dias, mas um dia ....Arre! quem sabe um dia ...
Tá tarde né? Veio o sono agora , metáfora perfeita pra esse fim da conversa,
Fica bem
Fica com dEus
Fica na memória aquele trecho do livro que vc me deu...
“teu coração baterás com força, sem que ninguém, ninguém escute...”
- .................. .
quinta-feira, 2 de dezembro de 2010
Sabinidades
Você não é feliz, nem nunca será.
Feliz foi o Viramundo,
que deixou sua terra com a roupa do corpo
e as idéias do Quixote...
esse sim, foi ser Vida de fato.
um olho na estrada
percebendo a poesia que passa,
percebendo a poesia que passa,
outro olho nos rostos que chegam
trilhando a natureza humana
um ouvido ao lado dos labios alheios
e o outro atento,
encostado nos trilhos do trem.
encostado nos trilhos do trem.
uma mão no bolso da calça surrada,
escondida.
escondida.
A outra à mostra, sempre num aceno de adeus.
Você não é feliz, repito.
Nem nunca será...
no sofá
se na Tv passa
que a moda passa
passa a mão sobre o ombro do seu amor
que a tv passa...
que a moda passa também...
e vocês ficam.
domingo, 14 de novembro de 2010
Pai do meu pai
No colo do meu avô
herói da minha infância
ouvia relatos de bravuras
e de como ser gente na vida.
Um dia me disse, distraído,
que quando criança
matava formigas graúdas
e lhes arrancava a cabeça
pra melhor entender
o que se passava ali...dentro delas.
Veio então o meu tempo
E cresci.
guardei minha inocência
e perdi minha esperança
Ficaram as duas imóveis,
postas de lado
junto com a imagem desconstruída
daqueles antigos insetos agoniados...
Não tenho mais colo
Nem comunhão com nada
A realidade física me é tudo.
Isso bem antes das fábulas que viriam a bater na minha porta
Antes da "bença" diária não mais exigida e da despedida habitual das coisas.
Antes mesmo da criação de todos os meus medos...
Ou como se hoje, reflito,
eu fosse aquela mesma faca surrada.
arma branca ao invés de alma,
que fere partes nascidas únicas
e então de relance ...
separadas pelo destino!
"destino-mão e faca de corte"
sim, juntas e alheias.
escolheram que fosse assim, simplesmente:
metade aqui, metade acolá.
sem perdão
sem conversa.
.
Mas isso é o que sou hoje.
não o que eu fui.
Era feliz no colo do meu avô.
Homem saudoso, gentil, sorriso largo.
Assassino frio e confesso
daquelas pobres e indefesas Saúvas...
herói da minha infância
ouvia relatos de bravuras
e de como ser gente na vida.
Um dia me disse, distraído,
que quando criança
matava formigas graúdas
e lhes arrancava a cabeça
pra melhor entender
o que se passava ali...dentro delas.
Veio então o meu tempo
E cresci.
guardei minha inocência
e perdi minha esperança
Ficaram as duas imóveis,
postas de lado
junto com a imagem desconstruída
daqueles antigos insetos agoniados...
Não tenho mais colo
Nem comunhão com nada
A realidade física me é tudo.
Isso bem antes das fábulas que viriam a bater na minha porta
Antes da "bença" diária não mais exigida e da despedida habitual das coisas.
Antes mesmo da criação de todos os meus medos...
Ou como se hoje, reflito,
eu fosse aquela mesma faca surrada.
arma branca ao invés de alma,
que fere partes nascidas únicas
e então de relance ...
separadas pelo destino!
"destino-mão e faca de corte"
sim, juntas e alheias.
escolheram que fosse assim, simplesmente:
metade aqui, metade acolá.
sem perdão
sem conversa.
.
Mas isso é o que sou hoje.
não o que eu fui.
Era feliz no colo do meu avô.
Homem saudoso, gentil, sorriso largo.
Assassino frio e confesso
daquelas pobres e indefesas Saúvas...
Jaz morais
A casa da minha infância
Passei por ela dias atrás
As portas, as janelas,
Todas fechadas agora
com cimento e tijolos
FECHADAS... definitivamente fechadas.
A morte, diferente do que pensamos
Não é apenas dos seres
mas de tudo aquilo que
um dia nos foi dado.
É ser religioso pensar nisso?
Perceber que a oração
Tem que ter um fim?
Não creio
É ser cotidiano.
É o abrir os olhos para o após...
e acreditar que talvez a sorte mude...
sábado, 30 de outubro de 2010
Labuta *
A mão do lavrador surrada
tem nela marcas de ingratidão
dali se vê muito além da roça campada
muito alem da foice na mão
Na mão do lavrador cansado
em dia de serviço puxado
se vê sangue, suor, solidão
mas por dentro, no fundo,
em silêncio tampado
em silêncio tampado
sem vestígio, sal ou chamado
ele não revela a ninguém (nunca!)
os calos do coração...
*achada em um caderno antigo, provavelmente de 2006.
sexta-feira, 29 de outubro de 2010
Por você
Desde a primeira linha nascida aqui, como que por um decreto universal, fica por tempo indeterminado e até segunda ordem, qualquer tipo de comentário ou pensamento sobre sua pessoa.
De qualquer um!
Apenas em meus pensamentos você agora tem passe livre, pra caminhar, viajar, pra sobreviver.
Como que fosse nova lei e uma nova ordem, a partir dessa manhã, ninguém, repito ninguém tem mais o direito de pensar em ti.
Quero todos os seus pensamentos, alheios ou não, quero o menor dos seus defeitos, todas as suas células e lembranças... guardadas aqui comigo.
Nao a qualquer tipo de evento novo, livre e disponível ao mundo, qualquer fotocópia ou polaróide, qualquer desejo ou vontade comum... nada.
Que o mundo esqueça que um dia você esteve entre eles.
Fica retido, por minha ordem, com se fosse por um deus, as suas menores preocupações e seus maiores traumas. E que qualquer outro deus ou entidade cósmica presente, onipresente ou sei lá, algo que se assemelhe a isso, que procure nova musa ou devota .
e digo mais, que cada um deles também se esqueça que vc um dia existiu. Cada um deles...
Que qualquer passo da sua nova vida será agora feito apenas dentro do meu peito.
E no de mais ninguém. Incluindo o seu.
Sua nova morada é dentro de mim. Seus desejos são agora a minha sina e meu objetivo eterno.
Seus primeiros passos, seus rabiscos, sua puberdade, virgindade, libido, gozo e decepção ....todos confiscados, guardados em local seguro, são meus por direito.
E que quando vc se sentir sufocada, cansada, entediada, que eu perceba logo.
É meu dever zelar pelo novo.
E que possa misericordiosamente abrir a janela...
Pra que o vento que entre...como que por milagre, refresque seu eterno amor por mim , também comprado sim, eu sei.
Mas por um preço justo.
E que eu te faça feliz.
Mas não saia daqui, certo?
Nunca mais.
Não é mais seguro lá fora.
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