quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Tempo

                                                                                                         Eu agora, que desfecho!
                                                                                                           já nem penso mais em ti...
                                                                                                            mas agora que nunca deixo
                                                                                                             de lembrar que te esqueci?
                                                                                                                                          Mário Quintana


(datado de 23 de junho de 2004)


Seu mundo entrou em colapso numa manhã de sábado.
Ela, ao acordar, percebeu a falta clara e real daquilo que havia se tornado cotidiano.

O rádio que a despertara noticiava calor e tempo claro para todo o fim de semana.
Mas não haviam mais planos que a incluíssem.
Virou a cabeça, olhou em volta.
Vazio.
A sensaçao de dedo goela abaixo bateu forte.
Eram exatos sete e quinze da manhã.
O mundo lá fora seguia seu curso, nada havia mudado.
Carros, pessoas apressadas, pombos na praça, vira-latas farejando comida.
Bateu vontade de escrever uma carta.
Saudade da mãe que já se fora.
Lembrança de uma música há tempos esquecida.
Pensou na academia.
Pensou em fazer um bom almoço.
Pensou em alimentar o canário.
Nada disso.
Ligou a Tv.
No momento em que no noticiário falavam de uma separação de gêmeos siameses, lá na Tailândia, notícia que em dias comuns passaria despercebida.
Primeiro vida, depois União, destino, escolha, separação... o cerebro processava tudo instantaneamente.
E tudo aquilo doía fundo.
Doía como se um punhal afiado saisse de dentro pra fora, poupando a carne e dilacerando a alma.
Veio a náusea e então lembrou-se dele.
Viu um jarro de rosas murchas encostados na cabeceira da cama.
- O tempo instala metodicamente todo o curso da vida - refletiu.
"Não há saida de emergência.".
Ninguém quer ser triste, mas por que diachos a nossa felicidade tem que estar nas mãos dos outros?
Aqueles que dizem serem felizes sozinhos mentem copiosamente.
Fechou os olhos.
Procurou , ainda encostada ao travesseiro, com as mãos remexendo, um recado dele na gaveta.
Achou um papel dobrado, já roto pelo tempo.
Leu (e releu) a mensagem:
"meu bem, tive que sair mais cedo, reunião as 7. tem pizza na geladeira, volto as 7. Bj, fica com Deus."
Uma lagrima anunciou,pairou.... mas não veio.
Respirou profundamente.
Pediu coragem aos céus pra se levantar, pra tocar em frente, pra sentir novamente fome, desejo, algo que lembre vida.
"Vida, vida, vida", repetia sozinha como uma prece.
Mas ela sabia que a felicidade tinha ido . e que ela não mais voltaria às 7.
Reunião sem hora marcada. Demissão com justa causa.
Restaram ali as rosas, restou a carta, restou a sensação de que poderia ter sido.
Mas que  não foi.
Ela sabia que aquela era a sua chance.Isso não se descreve com palavras.
Depois de oito meses ela casou-se com renomado arquiteto. Homem bom e influente.Tiveram 3 filhos.
Ele foi para Paris, arrumou emprego estável, comprou terrreno pra mãe e alguns meses depois deu um ultimo mergulho com roupa e tudo mais no belo e indiferente Rio Siena.

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