terça-feira, 20 de setembro de 2011

Inocência

Lógico que eu sabia.
Ou ao menos hoje eu sei.

Era fim de verão, meados dos anos 90.
Aquela experiência que ocorre, se estivermos atentos, claro, duas ou três vezes nesta vida.
Daqueles fatos que nos marcam, que volta e meia vem à tona, latejando a cabeça da gente.
Primeiro, digo que se pudesse, por obra do destino ou mesmo de Deus, que por fim machucam do mesmo modo, faria tudo outra vez.
Igualzinho.
Do mesmo jeito.
Ela nem era tão bonita.
Era comum.
Mas como as coisas comuns dessa nossa estúpida vida ela tinha algo único, e o que a fazia tão comum por fim a fez única, milagre dos sentimentos alheios.
Na minha finita e desocupada visão do mundo, como ele se mostra, ela chamou minha atenção.
E logo fez sua morada aqui entre os Meus.
Coisas bonitas, eu pensava naquela época, são tão limitadas e por si só tão previsiveis em suas perfeições, que cansam demais a  gente.
Elas não fadigam os olhos, claro, sempre sedentos à ingenuidade.
Mas fadigam a alma.
E também nosso estômago, nauseado a aceitar tudo que o espírito o alimenta.
Ela era minha saída.
Uma oportunidade de fuga.
Não sei se acontece com todos, ou com todo o mundo, mas aprendi que se formos espertos, devemos ser felizes e aproveitar a vida como ela nos aparece.
Li isso em algum lugar, acho que muita gente leu isso também.

Mas não o será.
Nunca.
Assim como não o será a humanidade, antitese da vida.
Sem pessimismos, sem mais delongas, segue a história...
Cheguei com cuidado, pois nosso instinto avisa, e obriga,  que em terreno estranho devemos nos proteger de cada passo, semente, pessoa ou brilho que se aproxime. ( sim, naquela época assim eu agia).
Escolhi minha máscara, camuflei meu coração, me tornei mais homem do que nunca fui e ainda mais humano do que talvez nunca serei.
E apostei.

Não mudou.
Como as crianças, o homem apaixonado toca o que o fere com os sentidos, mas um "nao"...um simples "não", esta única palavra,  mudando todo um universo.
Mudando meu mundo.
Aquilo ainda há de me fazer respirar a vida inteira.
A minha felicidade e a minha utopia em jogo.
E mais nada.
Não.
Ah, sabes, naquela noite eu não dormi.
Acho que não dormi por três noites seguidas.
Atribuí esta minha miséria absoluta a um obstacúlo terreno, isso por meses.
Lá pelo fim do ano, cansado demais...eu descansei.
Coisa de instinto de sobrevivência mesmo.
e nessa noite, ao me lembrar de tudo passado, blues, noites em claro, secura nos olhos...eu brindei sozinho.
Naquela noite, sim, me lembro bem, eu não bebi uma taça...mas a garrafa inteira.

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