quinta-feira, 2 de junho de 2011

Pelo telefone *

*história retirada da minha mente, mas influenciada claramente pela escrita de Caio F. há diversas citaçoes do autor, emendadas aqui como se fossem uma colcha de retalhos...
que seja, créditos a ele....


“Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita...”
Carlos Drummond de Andrade



“Se eu talvez tivesse sido mais forte”
Essa é a frase que lateja na minha cabeça desde quando deixei que as coisas acontecessem.
 Culpa minha, só minha, da minha maldita fraqueza. Mas antes que me pergunte, não, não tenho nenhum orgulho disso. Nem orgulho, pena, arrependimento nem nada.
 - A ligação ta péssima...tá me ouvindo?
Só me lamenta é saber que, sempre fui eu no comando, o tempo todo, ditando regras e fazendo as coisas do meu jeito. Baita mentira, eu tava mesmo era  carente, de porre,  e incrivelmente fudida ; comigo, só comigo e com a vida.
Um dia se ajeita. Ah, se não!
Sim, eu sei, nesse momento, era eu, ainda era eu, e mesmo quando abdiquei da vontade, vista antes como conquista, e cedi espaço, ainda era eu.
Sabe quando a gente tá sem rumo? mas sem rumo mesmo, tipo fim de noite, gosto de cerveja quente na boca, que mesmo assim a gente empurra goela abaixo, por simples desespero, pela exata falta de sentido daquele momento, pela musica absurdamente alta que incomoda os ouvidos e a alma, mas que a gente tolera por saber que o silêncio seria, esse sim, intolerável; quando se percebe, na verdade:  eu queria mesmo era não estar ali, longe, sozinha, mas não “longe-sozinha”, entende?
Aí, nessa hora, sai de baixo, baixa metafísica, bate saudade de casa, é nó na garganta, aquela vontade louca de ser eu mesma ...só que  depois passa.
Ontem, ele tinha ligado, justo no momento em que eu tava tranqüila, não pela vida, tava tranqüila era  pela ausência da falta, ausência daquele sentimento calado, uma trégua nestes dias tão presentes...
Então ele veio, com o mesmo jeito de antes, e eu que já passei por essa estrada, que já conheço cada movimento desse jogo, lá fui, perfumada, segura, dona de mim, pagando pra ver.
“È tudo busca”, você diria; a tão falada  e  eterna busca ao amor, porque somos seres complexos, sociais, conscientes, e temos essa extrema necessidade por afeto e por um corpo quente pra chamar de “meu bem”, pra acordar num domingo de sol e cheirar o travesseiro dele e pedir um abraço, só mais um, e ouvir que te amo e te quero pra sempre, “até quando estivermos velhinhos?” , “sim, até quando formos dois velhinhos chatos e  ranzinzas”, e ao lembrar que hoje é  quarta feira, ansiar pelo almoço de domingo com a família reunida, ligar e dizer pra Tia Carmem não faltar , trazer as crianças e encomendar brigadeiro ....”.
Fala sério, ontem ele  falava de amor e queria mesmo era me comer;
 Tá, concordo, eu também queria isso, e pra não fazer feio fiz meu joguinho manjado, tudo baseado no meu conhecimento prévio dos fatos, naquilo que eu sei e aprendi, naquilo que no fim, sabemos todos, não serve mesmo é pra nada.
Mas que ainda funciona. E bem.
Justo quando eu estava mais ou menos em paz (se é que isso existe), fui lá e estraguei tudo, e o pior, incrivelmente de forma tão superficial, ficando no fim aquela sensação dejavú, tipo “é assim-que-as-coisas-são” e “ não-há-nada-a fazer-e-amanhã-tudo-passa...”
Isso, foi ontem.
“O instinto de sobrevivência não tolera cama vazia”, você uma vez  me disse isso.
Lembra que na hora eu achei graça ?
Se fosse hoje, talvez continuasse a sorrir, mas agora com a boca seca, porque, te digo, a contemplação destas coisas reais doeu de um jeito que eu acusei o golpe, perdi algo que não soube na hora o quê, e talvez ainda não saiba, mas que incomoda .
E persiste.
...Ainda tá ai pra me ouvir?
Hoje de manhã, escovando os dentes, como em um mantra, fiquei repetindo repetindo : “quero uma história bonita, quero voltar no exato ponto em que perdi o toque. “
- “Ce” não tá me entendendo e eu to falando merda, né?
Fico aqui, te enchendo, procurando saída pra isso, saída praquilo, sabendo que não...que saco! tô cansada de saber que não quero saída pra merda nenhuma, só me bastava mesmo era um pouco de equilíbrio, isso, equilíbrio, pra que quando eu desejasse andar, pudesse fazer do meu jeito.
Acho que agora  tô tão longe disso, sabe, porque a minha vida tornou-se partes de coisas alheias, parte do meu trabalho, das pessoas à minha volta, e acredite, ainda não me vejo parte disso...ainda. Porém aceito.: calada, omissa, ótima funcionária.
De alguma forma e por algum estranho propósito mantenho ainda alguma coisa guardada. Egoísticamente, em segredo, faço isso só por mim. Já tentei de tudo, noitada, tarô, amor platônico, virtual, xadrez, ficar, beijar, trepar, televisão no domingo, “livro de auto ajuda, horóscopo, novas aventuras, velhas decepções, até comprei um cachorro”...não me interrompa agora, tá ?, é que de tudo isso que eu te disse, só resumindo, queria apenas ser eu mesma, e ao querer isso, desejar com uma fé daquelas,sabe, tipo, febre de criança, tipo aqueles programas de crente que passam na madrugada, levantar os braços, sem precisar  levantar os braços, gritar , sem precisar abrir a boca... ah, Deus, Buda, Oxu, que nada....  quero uma fé danada é em mim mesmo!
Sabe, a gente perde tanto tempo procurando sentido na vida e o único sentido é estarmos vivos, parece tão obvio, né? Pois é,  Eu também não consigo.
Não sei se a gente, no final , pode mesmo voltar atrás , porque é tudo tão rápido, tanto trauma, tanta gente, tanta vida vagando entre/com/sobre a gente e a certeza de  que não dá pra retornar e sermos aquilo que éramos... A gente se encontra e se perde todos os dias, mas um dia ....Arre! quem sabe um dia ...
Tá tarde né? Veio o sono agora , metáfora perfeita pra esse  fim da conversa,
Fica bem
Fica com dEus
Fica na memória aquele trecho do livro que vc me deu...

              “teu coração baterás com força, sem que ninguém, ninguém  escute...”

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Um comentário:

Anônimo disse...

Tão eu.como se você me conhecesse.me identifiquei muito.ai eu pergunto você acredita em destino?