domingo, 14 de novembro de 2010

Pai do meu pai

No colo do meu avô
herói da minha infância
ouvia relatos de bravuras
e de como ser gente na vida.
Um dia me disse, distraído,
que quando criança
matava formigas graúdas
e lhes arrancava a cabeça
pra melhor entender
o que se passava ali...dentro delas.

Veio então o meu tempo
E cresci.
guardei minha inocência
e perdi minha esperança
Ficaram as duas imóveis,
postas de lado
junto com a imagem desconstruída
daqueles antigos insetos agoniados...

Não tenho mais colo
Nem comunhão com nada
A realidade física me é tudo.
Isso bem antes das fábulas que viriam a bater na minha porta
Antes da "bença" diária não mais exigida e da despedida habitual das coisas.
Antes mesmo da criação de todos os meus medos...

Ou como se hoje, reflito,
eu fosse aquela mesma faca surrada.
arma branca ao invés de alma,
que fere partes nascidas únicas
e então de relance ...
separadas pelo destino!

"destino-mão e faca de corte"
sim, juntas e alheias.
escolheram que fosse assim, simplesmente:
metade aqui, metade acolá.
sem perdão
sem conversa.
.
Mas isso é o que sou hoje.

não o que eu fui.

Era feliz no colo do meu avô.
Homem saudoso, gentil, sorriso largo.
Assassino frio e confesso
daquelas pobres e indefesas Saúvas...

Jaz morais


A casa da minha infância
Passei por ela dias atrás
As portas, as janelas,
Todas fechadas agora
com cimento e tijolos
FECHADAS... definitivamente fechadas.
A morte, diferente do que pensamos
Não é apenas dos seres
mas de tudo aquilo que
um dia nos foi dado.
É ser religioso pensar nisso?
Perceber que a oração
Tem que ter um fim?
Não creio
É ser cotidiano.
É o abrir os olhos para o após...
e acreditar que talvez a sorte mude...