quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Sabinidades

Você não é feliz, nem nunca será.
Feliz foi o Viramundo, 
que deixou sua terra com a roupa do corpo
e as idéias do Quixote...
esse sim, foi ser Vida de fato.
um olho na estrada
percebendo a poesia que passa,
outro olho nos rostos que chegam
trilhando a natureza humana
um ouvido ao lado dos labios alheios
e o outro atento,
encostado nos trilhos do trem.


uma mão no bolso da calça surrada,
escondida.
A outra à mostra, sempre num aceno de adeus.

Você não é feliz, repito.
Nem nunca será...

no sofá


se na Tv  passa
que a moda passa
passa a mão sobre o ombro do seu amor
que a tv passa...
que a moda passa também...


e vocês ficam.

domingo, 14 de novembro de 2010

Pai do meu pai

No colo do meu avô
herói da minha infância
ouvia relatos de bravuras
e de como ser gente na vida.
Um dia me disse, distraído,
que quando criança
matava formigas graúdas
e lhes arrancava a cabeça
pra melhor entender
o que se passava ali...dentro delas.

Veio então o meu tempo
E cresci.
guardei minha inocência
e perdi minha esperança
Ficaram as duas imóveis,
postas de lado
junto com a imagem desconstruída
daqueles antigos insetos agoniados...

Não tenho mais colo
Nem comunhão com nada
A realidade física me é tudo.
Isso bem antes das fábulas que viriam a bater na minha porta
Antes da "bença" diária não mais exigida e da despedida habitual das coisas.
Antes mesmo da criação de todos os meus medos...

Ou como se hoje, reflito,
eu fosse aquela mesma faca surrada.
arma branca ao invés de alma,
que fere partes nascidas únicas
e então de relance ...
separadas pelo destino!

"destino-mão e faca de corte"
sim, juntas e alheias.
escolheram que fosse assim, simplesmente:
metade aqui, metade acolá.
sem perdão
sem conversa.
.
Mas isso é o que sou hoje.

não o que eu fui.

Era feliz no colo do meu avô.
Homem saudoso, gentil, sorriso largo.
Assassino frio e confesso
daquelas pobres e indefesas Saúvas...

Jaz morais


A casa da minha infância
Passei por ela dias atrás
As portas, as janelas,
Todas fechadas agora
com cimento e tijolos
FECHADAS... definitivamente fechadas.
A morte, diferente do que pensamos
Não é apenas dos seres
mas de tudo aquilo que
um dia nos foi dado.
É ser religioso pensar nisso?
Perceber que a oração
Tem que ter um fim?
Não creio
É ser cotidiano.
É o abrir os olhos para o após...
e acreditar que talvez a sorte mude...

sábado, 30 de outubro de 2010

Labuta *

A mão do lavrador surrada
tem nela marcas de ingratidão
dali se vê muito além da roça campada
muito alem da foice na mão
Na mão do lavrador cansado
em dia de serviço puxado
se vê sangue, suor, solidão
mas por dentro, no fundo,
em silêncio tampado
sem vestígio, sal ou chamado
ele não revela a ninguém (nunca!)
os calos do coração...



*achada em um caderno antigo, provavelmente de 2006.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Por você


Desde a primeira linha nascida aqui, como que por um decreto universal, fica por tempo indeterminado e até segunda ordem, qualquer tipo de comentário ou pensamento sobre sua pessoa.

De qualquer um!
Apenas em meus pensamentos você agora tem passe livre, pra caminhar, viajar, pra sobreviver.
Como que fosse nova lei e uma nova ordem, a partir dessa manhã, ninguém, repito ninguém tem mais o direito de pensar em ti.
Quero todos os seus pensamentos, alheios ou não, quero o menor dos seus defeitos, todas as suas células e lembranças... guardadas aqui comigo.
Nao a qualquer tipo de evento novo, livre e disponível ao mundo, qualquer fotocópia ou polaróide, qualquer desejo ou vontade comum... nada.
Que o mundo esqueça que um dia você esteve entre eles.
Fica retido, por minha ordem, com se fosse por um deus, as suas menores preocupações e seus maiores traumas. E que qualquer outro deus ou entidade cósmica presente, onipresente ou sei lá, algo que se assemelhe a isso, que procure nova musa ou devota .
e digo mais, que cada um deles também se esqueça que vc um dia existiu. Cada um deles...
Que qualquer passo da sua nova vida será agora feito apenas dentro do meu peito.
E no de mais ninguém. Incluindo o seu.
Sua nova morada é dentro de mim. Seus desejos são agora a minha sina e meu objetivo eterno.
Seus primeiros passos, seus rabiscos, sua puberdade, virgindade, libido, gozo e decepção ....todos confiscados, guardados em local seguro, são meus por direito.

E que quando vc se sentir sufocada, cansada, entediada, que eu perceba logo.
É meu dever zelar pelo novo.
E que possa misericordiosamente abrir a janela...
Pra que o vento que entre...como que por milagre, refresque seu eterno amor por mim , também comprado sim, eu sei.
Mas por um preço justo.
E que eu te faça  feliz.
Mas não saia daqui, certo?
Nunca mais.
Não é mais seguro lá fora.

domingo, 24 de outubro de 2010